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terça-feira, 2 de abril de 2019

Coisas que ainda acontecem no dia a dia.

As aventuras de quem entende
Mas, não compreende.

Eu: Gabriel, você leva o Moti para tomar banho na sexta as 16 horas?
Gabriel: ok. (anotou na agenda o compromisso)

Fiquei esperando ele perguntar como pagaria o banho.
Passou um dia,
Passaram dois dias....
Até que chegou a sexta feira, as 16 horas.

Eu: Gabriel, você levou o moti para tomar banho?
Gabriel: Sim. Levei
Eu: E você tem dinheiro?
Gabriel: Dinheiro para quê?
Eu: Para pagar o banho
Gabriel: Você só pediu para levá-lo para tomar banho, não disse que tinha que pagar.
Eu: E como você vai trazer o Moti de volta? Tem que pagar, se não eles não vão entregar.
Gabriel: E quanto custa?
Eu: Eu acho que é R$ 60,00
Gabriel: Eu tenho R$ 50,00, preciso de R$ 10,00.

Como já sabia que o Gabriel não teria o dinheiro, deixei na geladeira o dinheiro para ele pagar.

Eu: Tem R$ 100 reais na geladeira, usa para pagar.
Gabriel: Mas, eu preciso de R$ 10,00. Tem 10 reais?
Eu: Não só tem uma nota de R$ 100.
Gabriel: Então não vai adiantar. Porque eu preciso de 10.
Eu: Usa os 100 reais.
Gabriel: Vou dar os 150 reais para moça?
Eu: Não. Você usa os 100 reais para pagar.
Gabriel: E os 50 reais, o que eu faço.
Eu: Joga no lixo.
Gabriel: Você quer que eu jogue no lixo os R$ 50 reais?
Eu: Não. Só louco que joga dinheiro no lixo.
Gabriel: E você acha que eu sou louco?
Eu: Nãoooooooooo...... só fiz um sarcasmo
Gabriel: Nossa, mãe. Realmente você complica a minha vida. Era tão mais fácil deixar 10 reais na geladeira

Tem hora que eu penso....
Realmente complico a vida demais.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Insista. Persista. Não desista.

Gabriel sofreu muito na escola.
Eu sempre dizia:
- Não liga o que os outros falam.
- Você é um menino de ouro.
- Se a pessoa não quer ser seu amigo, não tem problema, você encontrará outros que querem.

Sempre o motivei o máximo.
Tentava de tudo para melhorar a sua auto estima.
E nada funcionava.

Eu falava que todo mundo tinha uma dificuldade.
Cada um tinha um defeito.
E que o defeito podia ser perfeito também.

Ele sempre dizia:
- Você não entende.
- Você não sabe.

E perguntava:
- Então me explica, por favor, me explica o que você sente.

Ele explicava que não deixavam brincar
Ele falava que riam dele por não entender
Ele gritava que não conseguia.

Por mais argumento,
Por mais solução que eu dava
Ele dizia: você não entende.
Ninguém entende.
Eu não consigo.

Gabriel foi no psicologo
Passou em diversos.
Odiava ir.

Sua irmã não o entendia porque ele não gostava.
Ela dizia: Gabriel é tão legal a psicologa, a gente só brinca.
Ele: Então vai você. Não gosto que fiquem olhando. Não sou estranho. Sou normal.

Com o tempo o Gabriel parou de falar sobre os problemas.
Não porque tinha terminado.
Porque ele tinha a certeza que eu não ia ajudá-lo
E também não queria me ver chorar.

Ele dizia: Não vou te contar, você não vai me ajudar e vai chorar escondido.

Eu não sabia o que fazer.
Mas, continuamos na luta e andado a deriva.
Mudamos o Gabriel de escola.
Começou a pratica de esporte, o beisebol
Nana ajudava como podia na escola e no dia a dia.
Continuava na fono.
Treinava na casa do amigão.
Fazia terapia com o psicologo.
Os amigos do beisebol o incentivava
Fazia aula particular
Realizava terapia de acupuntura.
Fez “n” coisas ao mesmo tempo.
E, mesmo assim se sentia só.
incompreendido
E achava o estranho.

Muitas vezes eu pensava em desistir.
Deixá-lo no seu mundinho.
Fugir dos problemas.
E facilitar a sua vida.

Seria mais fácil.
Ahhhh... seria muito mais fácil.

Mas, nós não podíamos abandoná-lo.
Tínhamos que continuar remando.
Mesmo sem saber para onde os sentimentos e pensamento do Gabriel caminhavam.

E um belo dia, eu percebi que ele tinha se fortalecido.
Não que as pessoas pararam de rir dele.
Continuam achando que ele é bobo, burro e estranho.
Mas, isso não machuca tanto.

Eu não sei o que melhorou.
Se foi a psicologa
Se foi o amigão
Ou qual “n” atividades que ele fez.
Só sei que melhorou.

E foi quanto tempo?
1 semana?
1 mês?
Não.
Foram anos.
Anos de lutas.

Nós como pais temos que tentar.
Temos que insistir.
Não podemos desistir.
Mesmo não surtindo efeito naquele momento.
Uma hora eles melhoram....

E se não melhorar?

Insista.
Persista
Não desista, mesmo que seja mais fácil.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O nome do pai


Eu não me lembro quantos anos o Gabriel tinha.
Eu acredito com 7 ou 8 anos.

Ele voltou para casa triste.
E mostrou uma prova, tinha tirado 1.
Um dos exercícios era: Escreva o nome da sua mãe e do seu pai.

Ele escreveu: Mamãe Tris e Papai Rebiti
Tinha um X enorme na questão.

No dia seguinte, fui questionar a professora.
Eu: Ele escreveu certo mamãe e papai. Não tinha que considerar meio certo?
Ela:As crianças nesta idade tem que saber escrever o nome dos pais.
Eu: Mas, nunca fizemos nenhum exercício com os nomes dos pais. E Gabriel tem DPAC, a compreensão dele é diferente da nossa.
Ela: Se você nunca ensinou, não tenho culpa.

Sai arrasada de lá.
Tinha tanta coisa para ensinar.
Nunca tinha passado na minha cabeça que pediriam os nomes dos pais em uma prova.

E porque estou contando isso?
Gabriel fará 18 anos este ano.
E pela internet fez o alistamento militar.

E fomos preenchendo as informações solicitadas.
Nome, data de nascimento, RG, CPF, endereço
Algumas informações ele sabia,
Outras eu falava.

E um certo momento chegou:
Nome da mãe – ok
Nome do pai – ele pensou, digitou, apagou, digitou de novo. E perguntou:

Gabriel: Como escreve o nome do pai?
Eu: Com H
Gabriel: Hebeti
Eu: Não Gabriel, T é mudo.
Gabriel: O que é um T mudo? O T fala?
Eu: Não Gabriel, é o T sem a vogal i
Gabriel: Ahhh, não era melhor falar T sem a vogal do que T que não fala?
Eu: Faltaram dois R no nome, depois do E
Gabriel: Dois R?
Eu: Depois do E
Gabriel: Herrbet
Eu: Não
Gabriel: Você disse dois R depois do E.
Eu: Desculpa. Tem R depois do E.
Gabriel: Escreve aqui.
Eu: H E R B E R T
Gabriel: Porque escolheram um nome tão difícil
Eu: Acho que era para complicar a vida nossa.

Fiquei pensando......
Mais de 10 anos depois
Somente agora que eu ensinei como escreve o nome do pai.
Realmente a culpa foi minha.
Devia ter ensinado antes

Enfim.... nunca é tarde para aprender e ensinar..... 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A vida provou que eu estava enganada....


Quando o Gabriel tinha 4 anos, ele falava apenas palavras soltas e pela metade ola (coca cola), eta (bicicleta)
Eu achei que ele nunca falaria corretamente.
Pensei em chorar.
Mas aos 10 anos passei a entendê-lo.

Quando o Gabriel tinha 5 anos, ele não obedecia, vivia fazendo birras.
Eu achei que ele era mal educado e mimado.
Pensei em sumir.
Mas, aos 7 anos eu descobri que ele tinha DPAC.

Quando o Gabriel tinha 6 anos, ele não parava de chorar.
Eu achei que ele nunca pararia.
Pensei em morrer.
Mas, aos 12 anos eles se fortaleceu.

Quando o Gabriel tinha 7 anos, entendemos que que ele não compreendia o que falava ou solicitava.
Eu achei que ele nunca compreenderia.
Pensei em desaparecer
Mas, aos 11 anos com muito esforço, ele disse: agora eu entendo o que você fala.

Quando o Gabriel tinha 8 anos ele disse: não quero ir para escola.
Eu achei que ele pararia de estudar.
Pensei em voar bem longe.
Mas, aos 12 anos ele passou a gostar.

Quando o Gabriel tinha 9 anos e dizia que não tinha amigos.
Eu achei que ele nunca faria amigos
Pensei em me esconder
Mas, aos 13 anos ele disse: agora tenho amigos.

Quando o Gabriel tinha 10 anos, as escola era um desafio.
Ele não entendia o que os professores falavam.
Pensei em fugir
Mas, aos 11 anos ele disse: você sabe que agora eu entendo o que você fala

Quando o Gabriel tinha 11 anos, ele não sabia cantar ainda.
Eu achei que ele nunca aprenderia.
Pensei em sumir
Mas, aos 14 anos ele aprendeu.

Quando o Gabriel tinha 12 anos, as pessoas riam porque ele trocava as palavras ou letras.
Eu achei que seria sempre assim.
Pensei em evaporar
Mas, a cada dia ele vem falando melhor.

Quando o Gabriel tinha 13 anos, ninguém o chamava para ir em aniversários.
Eu achei que nunca o chamariam.
Pensei que enlouqueceria
Mas, quando chegou um convite, foi uma grande festa.

Quando o Gabriel tinha 14 anos, ele era ainda café com leite nos trabalhos da escola.
Eu achava que ele sempre seria assim.
Pensei em encobrir
Mas, a cada dia ele vem se esforçando para mostrar que é capaz de fazer.

Quando o Gabriel tinha 15 anos, quebraram o braço dele na escola.
Eu fiquei arrasada
Pensei em xingar.
Mas, no ano seguinte os amigos da escola passaram a entendê-lo e a inclui-lo realmente na escola.

Quando o Gabriel tinha 16 anos, ele foi para o ensino médio.
Eu pensei que ele não daria conta.
Pensei em ocultar.
Mas, a cada dia ele mostra interessado em aprender.

Hoje o Gabriel tem 17 anos.
E com ele aprendi o que é ser persistente.
E, principalmente o que é ser resiliente.

A vida mostrou que eu estava enganada.
Sofri demais.
Chorei demais.
Ontem eu pensava que ele não seria capaz.
E hoje, vejo o quão forte ele é.

Para as famílias que acham que o seu filho não será capaz, tenham a certeza.
Que eles mudam.
Eles crescem.
E tudo se transformam no seu tempo.